Eu sei, esse título é no mínimo
estranho. Hehehe Mas fiquem tranquilos, acho que no fim do meu relato ele será
compreendido. Já faz tempo que eu tento por em forma de texto o meu
relacionamento com a Arte, a Arte-educação e Arte-não-arte (sim, esse último
termo não existe, eu inventei.)
O fato é que cada vez que eu
tentava por em ordem esses pensamentos, mais eles se desordenavam. Bom, na
verdade grande parte deles continua em desordem, porém, em uma discussão em uma
aula, eu tive um “click” mental e eu consegui entender um pedaço dessa relação
complicada e nem um pouco amorosa que é a minha com o universo artístico.
Penso que talvez tais escritos
pareçam como um “memorial descritivo”, só que em um formato não muito acadêmico.
Vou dividir o texto em três partes, de acordo com a ordem que coloquei ali em
cima (Arte, arte-educação e arte-não-arte). Boa leitura! :P
Bom, para início de relato
gostaria de dizer que faço parte de uma família de classe média e nunca sofri
muito com influências culturais negativas, tais como tráfico em favela, roubos,
música de qualidade ruim (funk) e etc. Sempre achei que vivia numa família de
acervo cultural interessante (não entendam isso como racismo, talvez eu só
esteja usando a palavra “cultura” erroneamente), principalmente na área
musical. Lembro-me de passar minha infância ouvindo Bossa Nova, MPB (do tipo
Chibo Buarque, Caetano e etc.), de acordar com música clássica bem alta e
coisas do tipo. Lembro-me do meu avô tendo discussões de QI alto com amigos e
familiares. Enfim, achava me encontrar num nível cultural bom.
Mas o fato é que, em geral isso
não funcionava pra as Artes Plásticas. Não tínhamos o costume de visitar museus,
não tínhamos o hábito de falar sobre arte e conhecer a arte. Entretanto, isso nunca foi um problema pra mim, ou eu
achava que não era, até o dia que ingressei na universidade para ao curso de
Artes. Durante minha educação no ensino básico, eu também não me aprofundei
muito na área. Não me lembro exatamente o que tive de conteúdo em na disciplina
de artes.
Apesar de não ter tido contato
com o universo artístico em geral, eu sempre gostei da “parte manual” da arte,
como desenhar, pintar, recortar, colar e etc.
Quando decidi tentar o curso de
Artes Visuais, escolhi quando abri a grade do curso e me encantei com as disciplinas
de Desenho, Escultura, Pintura, Fotografia, Cerâmica, Serigrafia dentre outras.
Em geral, foram as disciplinas de técnicas manuais que me interessaram, não me
liguei na parte que se referia a História da Arte e as disciplinas pedagógicas.
Escolhi a licenciatura por dois motivos, o primeiro porque uma pessoa
licenciada em Artes Visuais pode fazer tudo o que um Artista bacharel em
Plásticas pode fazer e ainda pode aula, sendo que um Artista Plástico pode
fazer tudo, mas não pode dar aula. (ok, eu sei que pode, mas ganha menos e
acaba tendo que fazer complementação pedagógica depois). E segundo porque eu
gostava bastante de estar em frente a um quadro, não tinha medo algum de falar
na frente de um público grande (apesar de, em geral, ser uma pessoa tímida e
com problemas com comunicação) e achei que por causa disso poderia ser uma boa
professora.
Quando ingressei no curso de
Artes Visuais foi que eu me dei conta do que era realmente a Arte. Foi aí que
deu se deu o início a minha briga eterna contra ela. ( Hehehe). No começo, era
só eu e aquele mundo louco que era a arte, o que já era maluco o suficiente pra
me deixar doida e revoltada, depois entrou a educação e aí o mundo desabou
sobre a minha cabeça (sim, eu sou exagerada e dramática). Mas vamos por partes.
A minha primeira revolta foi pelo
fato de Arte ser um universo ridiculamente elitista que pregava o discurso de
não ser. Então era tipo assim, eu sou artista, crio uma coisa maluca da minha
cabeça, mas que pra mim faz todo sentido (ou não) e exponho isso, para que as
outras pessoas tentem descobrir o que é aquilo. Mas eu não digo o que é, e as
pessoas ficam lá horas olhando e tentando analisar o que será que é, e tendo reações
diversas e sentimentos, e conclusões que nem eu imaginei ter quando criei. Mas
não importa, é isso que a arte é, um grande ponto de interrogação, é isso que fomenta
a arte, o não ser somente aquilo o que era pra ser, é ser múltipla, é ser transcendental,
é ir adiante, é atravessar o que ela mesma era pra ser. Uma doidera só. (:
Então, a arte era aquilo, algo
incompreensível e inexplicável, só sentido. E tinha eu, o artista, que criava
obras para que elas fossem vistas e sentidas dessa forma. E tinha um público
elitista que fazia esse papel de intérprete do que não é pra ser interpretado e
UAU, surgia uma auréola na minha cabeça. Eu era esse ser que proporcionava uma
coisa inexplicável e que todos amavam por causa disso, e que todos não
entendiam, mas compreendiam. E tinha também, esse público leigo que ia num
espaço expositivo e olhavam para a minha grande obra de arte instigadora e não
entendiam nada, e não sentiam nada e só pensavam “que maluquice do outro mundo
é essa? Que cachaça da brava essa moça estava tomando para fazer esse negócio
do universo paralelo?”.
Tinha eu, artista, e esses dois
públicos. Para o público elitista eu mandava beijos, para o público leigo eu
mandava língua. Para o público leigo, eu dizia: “Arte é cultura e cultura é
para todos, mas você meu amigo, é muito leigo, não teve influências culturais
boas e por isso não entende o que eu faço”. O que você deve fazer meu amigo ignorante, (que
nasceu em berço brasileiro, não viveu a arte europeia, e não faz parte dessa
cultura linda), é ir a um museu, olhar para a minha obra de arte e para todas
as outras e ficar lá contemplando e tentando entender o que eu quis dizer com
isso, porque isso é legal, isso é o certo, isso é arte. Você não pode contestar,
não pode falar alto, não pode dizer que não gostou e NÃO, nunca diga que não
entendeu.
Arte é cultura e cultura é para
todos, mas essa não é pra você. Eu não faço arte pra você e eu não quero que
você entenda, afinal, quando eu digo “todos” não é todo mundo. Afinal, a arte é
muito acessível, ela está lá e só não entende quem não quer.
Bizarro, arte elitista me
revolta. Na minha humilde opinião, esse discurso é falho. Primeiro porque Arte
é um conhecimento como todos os outros. Arte é um conhecimento como ciência,
matemática, geografia, música e etc. Uns vão se adaptar e outros não. Uns
escolhem humanas e outros escolhem exatas. É como se eu fizesse uma exposição
de um sistema de qualquer área da engenharia e culpasse os leigos por não entenderem
e excluíssem-no.
Segundo porque, a Arte continua
elitista porque muitos artistas têm interesses (egocêntricos) de que ela
continue assim, para que seu status continue alto. A Arte é elitista, pois
antigamente só quem tinha acesso eram realmente os que detinham poder e
dinheiro. Com o tempo, foi-se quebrando as barreiras, tudo foi se tornando mais
acessível, mas os resquícios ficaram e ideologicamente ela continua elitista.
Outra coisa que eu acho válido
destacar também é o fato de que a arte que respiramos veio da arte europeia.
Sim, eu entendo que isso é válido, pois éramos colônia de Portugal e tudo era
ditado de lá. Temos sim que ter uma base do que é que veio de lá e que nos
influenciou a sermos o que somos agora (não só no quesito arte e cultura) mas
temos que lembrar que quem nasce no Brasil agora, já não tem mais esse link, já
vive num país que é Brasil por si só. País tão grande como esse conquistou sua
própria arte, da qual faz parte da nossa cultura e não tem mais lógica alguma
se localizar num espaço expositivo tão arcaico com pensamentos tão igualmente arcaicos
que alguns artistas têm. Estou generalizando? Sim. Existem muitos artistas
novos por aí fazendo arte de rua, instalações públicas? Sim. Mas boa parte
ainda está no ar, ou melhor, no céu, num patamar elevado que só é possível ser
alcançado por pessoas proporcionalmente elevadas.
E esse foi o meu primeiro e
grande choque com o universo da Arte. Eu estava lá, cursando arte e sendo
julgada por todos e inclusive por mim mesma, por ser uma pessoa leiga nessa
área. E me matando para tentar fazer uma leitura das obras. Tentando entender
como com toda certeza do mundo uma pessoa dizia que a arte era para todos sendo
que nem todos eram apreciados por ela.
E lá vamos nós ao título do
texto: eu entrei para Artes e me deparei com a Arte (e fiquei louca: Parte I).
Hoje, depois de vários tapas na cara, eu consigo compreender mais ou menos o
que é a arte e como funciona. Mas, me dou o direito de não entender as obras,
de não gostar, de não apreciar e etc. E amparada pelo próprio discurso artístico,
me sinto segura, pois arte não é pra ser explicada, nem entendida, é pra ser
sentida.
Para finalizar, eu li um texto muito legal em um blog de reflexões sobre a arte que achei por aí que critica essa coisa toda de dividir a arte entre Erudita e Popular. É um post pequeno, confiram lá: Arte popular: RECONHECIMENTO OU SAQUE CULTURAL?!?
Para finalizar, eu li um texto muito legal em um blog de reflexões sobre a arte que achei por aí que critica essa coisa toda de dividir a arte entre Erudita e Popular. É um post pequeno, confiram lá: Arte popular: RECONHECIMENTO OU SAQUE CULTURAL?!?
Fim da Parte I. Vejo vocês na próxima! o/

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