segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Eu entrei em Artes e me deparei com a Arte : Parte I



Eu sei, esse título é no mínimo estranho. Hehehe Mas fiquem tranquilos, acho que no fim do meu relato ele será compreendido. Já faz tempo que eu tento por em forma de texto o meu relacionamento com a Arte, a Arte-educação e Arte-não-arte (sim, esse último termo não existe, eu inventei.)
O fato é que cada vez que eu tentava por em ordem esses pensamentos, mais eles se desordenavam. Bom, na verdade grande parte deles continua em desordem, porém, em uma discussão em uma aula, eu tive um “click” mental e eu consegui entender um pedaço dessa relação complicada e nem um pouco amorosa que é a minha com o universo artístico.
Penso que talvez tais escritos pareçam como um “memorial descritivo”, só que em um formato não muito acadêmico. Vou dividir o texto em três partes, de acordo com a ordem que coloquei ali em cima (Arte, arte-educação e arte-não-arte). Boa leitura! :P
Bom, para início de relato gostaria de dizer que faço parte de uma família de classe média e nunca sofri muito com influências culturais negativas, tais como tráfico em favela, roubos, música de qualidade ruim (funk) e etc. Sempre achei que vivia numa família de acervo cultural interessante (não entendam isso como racismo, talvez eu só esteja usando a palavra “cultura” erroneamente), principalmente na área musical. Lembro-me de passar minha infância ouvindo Bossa Nova, MPB (do tipo Chibo Buarque, Caetano e etc.), de acordar com música clássica bem alta e coisas do tipo. Lembro-me do meu avô tendo discussões de QI alto com amigos e familiares. Enfim, achava me encontrar num nível cultural bom.
Mas o fato é que, em geral isso não funcionava pra as Artes Plásticas. Não tínhamos o costume de visitar museus, não tínhamos o hábito de falar sobre arte e conhecer a arte. Entretanto,  isso nunca foi um problema pra mim, ou eu achava que não era, até o dia que ingressei na universidade para ao curso de Artes. Durante minha educação no ensino básico, eu também não me aprofundei muito na área. Não me lembro exatamente o que tive de conteúdo em na disciplina de artes.
Apesar de não ter tido contato com o universo artístico em geral, eu sempre gostei da “parte manual” da arte, como desenhar, pintar, recortar, colar e etc.
Quando decidi tentar o curso de Artes Visuais, escolhi quando abri a grade do curso e me encantei com as disciplinas de Desenho, Escultura, Pintura, Fotografia, Cerâmica, Serigrafia dentre outras. Em geral, foram as disciplinas de técnicas manuais que me interessaram, não me liguei na parte que se referia a História da Arte e as disciplinas pedagógicas. Escolhi a licenciatura por dois motivos, o primeiro porque uma pessoa licenciada em Artes Visuais pode fazer tudo o que um Artista bacharel em Plásticas pode fazer e ainda pode aula, sendo que um Artista Plástico pode fazer tudo, mas não pode dar aula. (ok, eu sei que pode, mas ganha menos e acaba tendo que fazer complementação pedagógica depois). E segundo porque eu gostava bastante de estar em frente a um quadro, não tinha medo algum de falar na frente de um público grande (apesar de, em geral, ser uma pessoa tímida e com problemas com comunicação) e achei que por causa disso poderia ser uma boa professora.
Quando ingressei no curso de Artes Visuais foi que eu me dei conta do que era realmente a Arte. Foi aí que deu se deu o início a minha briga eterna contra ela. ( Hehehe). No começo, era só eu e aquele mundo louco que era a arte, o que já era maluco o suficiente pra me deixar doida e revoltada, depois entrou a educação e aí o mundo desabou sobre a minha cabeça (sim, eu sou exagerada e dramática). Mas vamos por partes.
A minha primeira revolta foi pelo fato de Arte ser um universo ridiculamente elitista que pregava o discurso de não ser. Então era tipo assim, eu sou artista, crio uma coisa maluca da minha cabeça, mas que pra mim faz todo sentido (ou não) e exponho isso, para que as outras pessoas tentem descobrir o que é aquilo. Mas eu não digo o que é, e as pessoas ficam lá horas olhando e tentando analisar o que será que é, e tendo reações diversas e sentimentos, e conclusões que nem eu imaginei ter quando criei. Mas não importa, é isso que a arte é, um grande ponto de interrogação, é isso que fomenta a arte, o não ser somente aquilo o que era pra ser, é ser múltipla, é ser transcendental, é ir adiante, é atravessar o que ela mesma era pra ser. Uma doidera só. (:
Então, a arte era aquilo, algo incompreensível e inexplicável, só sentido. E tinha eu, o artista, que criava obras para que elas fossem vistas e sentidas dessa forma. E tinha um público elitista que fazia esse papel de intérprete do que não é pra ser interpretado e UAU, surgia uma auréola na minha cabeça. Eu era esse ser que proporcionava uma coisa inexplicável e que todos amavam por causa disso, e que todos não entendiam, mas compreendiam. E tinha também, esse público leigo que ia num espaço expositivo e olhavam para a minha grande obra de arte instigadora e não entendiam nada, e não sentiam nada e só pensavam “que maluquice do outro mundo é essa? Que cachaça da brava essa moça estava tomando para fazer esse negócio do universo paralelo?”.
Tinha eu, artista, e esses dois públicos. Para o público elitista eu mandava beijos, para o público leigo eu mandava língua. Para o público leigo, eu dizia: “Arte é cultura e cultura é para todos, mas você meu amigo, é muito leigo, não teve influências culturais boas e por isso não entende o que eu faço”.  O que você deve fazer meu amigo ignorante, (que nasceu em berço brasileiro, não viveu a arte europeia, e não faz parte dessa cultura linda), é ir a um museu, olhar para a minha obra de arte e para todas as outras e ficar lá contemplando e tentando entender o que eu quis dizer com isso, porque isso é legal, isso é o certo, isso é arte. Você não pode contestar, não pode falar alto, não pode dizer que não gostou e NÃO, nunca diga que não entendeu.
Arte é cultura e cultura é para todos, mas essa não é pra você. Eu não faço arte pra você e eu não quero que você entenda, afinal, quando eu digo “todos” não é todo mundo. Afinal, a arte é muito acessível, ela está lá e só não entende quem não quer.
Bizarro, arte elitista me revolta. Na minha humilde opinião, esse discurso é falho. Primeiro porque Arte é um conhecimento como todos os outros. Arte é um conhecimento como ciência, matemática, geografia, música e etc. Uns vão se adaptar e outros não. Uns escolhem humanas e outros escolhem exatas. É como se eu fizesse uma exposição de um sistema de qualquer área da engenharia e culpasse os leigos por não entenderem e excluíssem-no.
Segundo porque, a Arte continua elitista porque muitos artistas têm interesses (egocêntricos) de que ela continue assim, para que seu status continue alto. A Arte é elitista, pois antigamente só quem tinha acesso eram realmente os que detinham poder e dinheiro. Com o tempo, foi-se quebrando as barreiras, tudo foi se tornando mais acessível, mas os resquícios ficaram e ideologicamente ela continua elitista.
Outra coisa que eu acho válido destacar também é o fato de que a arte que respiramos veio da arte europeia. Sim, eu entendo que isso é válido, pois éramos colônia de Portugal e tudo era ditado de lá. Temos sim que ter uma base do que é que veio de lá e que nos influenciou a sermos o que somos agora (não só no quesito arte e cultura) mas temos que lembrar que quem nasce no Brasil agora, já não tem mais esse link, já vive num país que é Brasil por si só. País tão grande como esse conquistou sua própria arte, da qual faz parte da nossa cultura e não tem mais lógica alguma se localizar num espaço expositivo tão arcaico com pensamentos tão igualmente arcaicos que alguns artistas têm. Estou generalizando? Sim. Existem muitos artistas novos por aí fazendo arte de rua, instalações públicas? Sim. Mas boa parte ainda está no ar, ou melhor, no céu, num patamar elevado que só é possível ser alcançado por pessoas proporcionalmente elevadas.

E esse foi o meu primeiro e grande choque com o universo da Arte. Eu estava lá, cursando arte e sendo julgada por todos e inclusive por mim mesma, por ser uma pessoa leiga nessa área. E me matando para tentar fazer uma leitura das obras. Tentando entender como com toda certeza do mundo uma pessoa dizia que a arte era para todos sendo que nem todos eram apreciados por ela.
E lá vamos nós ao título do texto: eu entrei para Artes e me deparei com a Arte (e fiquei louca: Parte I). Hoje, depois de vários tapas na cara, eu consigo compreender mais ou menos o que é a arte e como funciona. Mas, me dou o direito de não entender as obras, de não gostar, de não apreciar e etc. E amparada pelo próprio discurso artístico, me sinto segura, pois arte não é pra ser explicada, nem entendida, é pra ser sentida.

Para finalizar, eu li um texto muito legal em um blog de reflexões sobre a arte que achei por aí que critica essa coisa toda de dividir a arte entre Erudita e Popular. É um post pequeno, confiram lá: Arte popular: RECONHECIMENTO OU SAQUE CULTURAL?!? 

Fim da Parte I. Vejo vocês na próxima! o/


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