quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Eu entrei em Artes e me deparei com a Arte : Parte II


 Bom, quando eu estava no meio desse embate (ler post passado), chega com um solavanco, a educação. Digo que chega como um choque, pois antes mesmo de eu ter encarado a minha primeira disciplina de licenciatura e iniciado calmamente a minha apresentação a arte-educação, eu decidi ser professora de ensino fundamental em um colégio do Estado.
Foi uma experiência ruim, muito ruim. Entrei para dar aula no começo do ano letivo (fevereiro) para 5 turmas, de 6º ao 9º ano. 5 horas de aula e 3 de planejamento. Não sei se é válido escrever toda a experiência passo por passo, sendo assim ressaltarei só alguns pontos.
Foi uma experiência péssima por vários motivos, um deles é que o colégio em si era problemático e não só eu, mas todos os professores tinham problemas com aquelas turmas que eu lecionava.
Segundo porque como eu não tinha me deparado com nenhuma disciplina pedagógica, e eu fui jogada dentro de uma sala de aula sem nenhuma preparação, eu não fazia ideia de por onde começar. Sabia que sim que tinha que começar procurando por algum planejamento, e descobri que o tal se chama PPP (Projeto Político Pedagógico). Descobrindo então que não existia tal item no colégio fui atrás do PCN (Parâmetro Curricular Nacional).
Encontrei o PCN do Estado para área de artes, que ficava num computador chumbrega que mal funcionava na sala dos professores. Por alguns segundos me senti salva e logo depois que li me senti perdida. O PCN era um guia de nada, basicamente tudo que eu li dizia: ensine tudo o que a arte pode permitir, da maneira que melhor lhe convir.
Tentei procurar por livros didáticos de Artes e apostilas de ensino particular, mas não funcionaram para a turma. Tentei começar só pela história da arte, tentei trabalhar em cima de um projeto, tentei passar só exercícios, tentei um tanto de coisas e nada funcionou. Não procurei por livros complementares sobre o ensino da arte em geral, talvez esse tenha sido meu erro, mas foi tanta decepção que no fim comecei a não me importar mais, só ficava ali, gritando e tentando controlar todo mundo.
Comecei a questionar se eu realmente estava interessada em dar aula, se eu me importava com o interesse dos alunos em arte, se eu queria realmente fazê-los entender e se eu realmente queria comprar aquela briga louca contra como está a educação, principalmente a pública onde eu me encontrava. A resposta que obtive foi um sonoro não. Era muita briga pra comprar, era muito esforço da minha parte em tentar enfiar um conhecimento de arte em gente desinteressada. Ainda mais um conhecimento que eu julgava nem eu mesma entender direito, um conhecimento que eu não via qual ligação tinha com aquele ambiente (Aqui vai remeter um pouco aquela história toda de arte elitista).
Enfim, entrei em depressão (mesmo) e comecei a me questionar se eu queria mesmo continuar no curso de artes e me formar professora. E não, eu não queria ser professora. E eu também não me via artista, não entendia como pensavam e sinceramente não queria ser. Não gostava de artes, não ia ao museu, não gostava de leitura de obras, não tinha habilidades artísticas, não tinha habilidades manuais e por fim odiava com toda a força dar aula. E então, o que mesmo que eu estava fazendo no curso de artes?
Bom, um semestre depois que larguei as aulas (fiquei 7 meses), iniciaram as matérias de licenciatura, começando com Fundamentos da Arte na Educação (FUAED). Eu sinceramente me matriculei só por obrigação, porque a vontade mesmo que eu tinha era cair fora. Não cai por motivos pessoais e porque eu não tinha mais nenhum outro caminho disponível pra minha vida se não continuar. Por sorte, a professora de FUAED foi excelente, muito boa mesmo e eu consegui ficar com alguns ensinamentos. Mas em geral, tudo que tinha ligação direta com a arte-educação foi em partes eliminado pelo meu cérebro.
Foi só quando eu cursei a matéria de Prática do Ensino da Arte no Ensino Fundamental que consegui entender o porquê do PCN ser do jeito que é, foi quando eu conheci através de textos, a digníssima Ana Mae Barbosa, grande arte-educadora, muito renomada, que contribuiu em grande parte para a mudança do ensino da arte do Brasil e que foi senhora criadora da famosa Abordagem Triangular.
Entendi sim, que o PCN era como era porque era baseado na Abordagem Triangular, mas não entendia o porquê a Abordagem Triangular ser tão amada por todos, sendo que diante da experiência que tive, ela não funcionava. Vi-me novamente perdida diante dessa abordagem da qual dizia que o ensino de artes era baseado em três pilares: o fazer artístico, a análise de obras e objetos de arte e a história da arte. Não entendia como eu ia conseguir condensar isso tudo nas aulas e ainda mais interligando um no outro.
Fui capaz de compreender, lendo sobre os caminhos do ensino da arte no Brasil o porquê do surgimento dessa proposta. No início só existia o ensino da técnica, depois com o acontecimento da Escolinha de Arte, ficou tudo livre, muito livre (e ainda assim voltado para a técnica, mas não mais de um modo engessado), e por fim, por se sentirem perdidamente livres e por não conseguirem nenhum resultado com isso, os educadores foram criando livros ou apostilas para se basear o ensino ficou só voltado para elas, voltando novamente a ser algo “engessado” e não condizente com a arte em que vivemos.
Ana Mae Barbosa, através do seu aprendizado com o seu tutor Paulo Freire (que tem uma proposta bem parecida com a Abordagem Triangular, mas não somente voltada para artes e sim para todo o universo de aprendizagem) veio por intermédio dessa nova abordagem, voltar o ensino da arte para a necessidade de hoje.
Hoje, eu compreendo a Abordagem Triangular, mas ainda tenho algumas críticas não fundamentadas sobre essa proposta (sim, o triste é que como vocês repararam nenhum argumento meu é fundamentado).
Na verdade talvez não sejam críticas a abordagem em si, mas como ela foi implementada nos PCNs e como eu acredito que ela não realmente funciona. Pode ser que seja por falta de um PPP nos colégios, mas em geral em uma instituição de ensino pública, como os colégios do estado ou até alguns colégios particulares, há uma enorme rotatividade de professores na área de artes, e eu considero muito estranho não ter nenhuma ordem a ser seguida dentro dos PCNs.
Não creio que uma ordem cronológica de saberes interfira diretamente na liberdade da Abordagem Triangular, pode-se ter um cronograma de conhecimentos a serem adquiridos e mesmo assim podem-se aplicar dentro de um ou vários projetos o fazer artístico, a análise de obras e objetos de arte e a história da arte. Exemplo: se em uma turma de 6º ano deve ser aplicado noção de cores (cor luz, cor pigmento, cor fria, cor quente, disco de cores, mistura de cores e etc) e formas (objetos 2D, 3D, profundidade, luz, sombra e etc), isso não interfere que seja feito um projeto onde se encaixe todos os itens da Proposta Triangular.
Vamos supor que o professor em contato com a turma verificou que a turma gosta de fotografia e acha que é uma tecnológica interessante de ser trabalhada. Ok, então, crie um projeto de fotografia, mostre fotografias de alguns mestres, mostre como ela é hoje na contemporaneidade, mostre trabalhos instigadores como os da Bienal, insira um assunto sobre cor, a falta de cor, o uso da cor ou qualquer coisa, proponha que façam estudos de fotografia com relação a cor, pode-se fazer uma conexão com a comunidade, cores do bairro, cores do colégio, sei lá. Ensine a manipular as cores em um material disponível no colégio e depois peça uma reprodução do próprio trabalho de fotografia, ou de um colega utilizando outro suporte. (Obs.: isso é só um exemplo por alto).
Enfim, o que eu entendo é que ter um cronograma de cada saber da área de artes para cada ano do ensino básico (e infantil), não é retornar o ensino da arte para o que era e nem estagnar ele. Todas as disciplinas que cursamos na vida têm ementas a serem seguidas e nem por isso elas limitam a gente, aliás, tudo na vida precisa de alguma ordem.
“Engessar” ou não o ensino da arte é o professor que define. Eu vi durante meu período de estágio no ensino básico que mesmo diante da Abordagem Triangular (talvez até por se sentirem perdidos) alguns professores a entendem de forma errada, ou talvez queiram entender dessa forma por ser mais fácil e acabam por fazer uma massa de bolo. Fazem projetos que retornam mais a arte-educação a forma que era do que se por algum acaso seguissem algum cronograma. Criam um mesmo projeto inúmeras vezes, só trocando o artista a ser apresentado, tornando assim a aula repetitiva e chata.
Em geral essa “massa de bolo” consiste em: escolhem um artista (Portinari ou Tarsila), apresentar o artista, a vida e as obras, iniciar uma discussão “semiótica” de análise de imagens e por fim fazer uma releitura das imagens. Quando esse projeto termina, escolhem outro artista e começam tudo de novo.
Eu mesma acabei caindo nesse esquema, quando dei minha aula para o ensino infantil, pois a professora pediu que eu fizesse algum projeto que se inserisse dentro do dela, que era sobre Portinari. O projeto anterior ministrado por essa mesma professora, tinha sido sobre a Tarsila, e na releitura do quadro “O Abaporu” pediu que os alunos utilizassem tinta acrílica sob tela e quando os alunos saiam para o recreio pegava tela por tela e pintava o que estava faltando e/ou corrigia o desenho para que ficasse mais parecido com o original.
Essa professora foi formada no mesmo curso que o meu, na mesma Universidade da qual estudo. Ela estava agindo de acordo com o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) dentro da Abordagem Triangular. Esse exemplo, é só pra reforçar que, é o professor que faz ou não o ensino da arte ser interessante.
Outra coisa, que eu acredito ser importante é o fazer artístico. O fazer artístico inclui técnica, e técnica tem que ser ensinada. Se o assunto era sobre cor, ensine a misturar as tintas e a pintar o círculo de cores, ensinando os alunos a conhecerem e utilizarem corretamente os materiais (sim eu tenho consciência de que o “correto” em arte é muito vago, mas o que eu quero dizer com essa palavra é que é válido ensinar algumas técnicas de como utilizar o material). Os alunos vão ter dificuldades sim, com o uso e aprendizado de técnicas artísticas, mas como eu já disse anteriormente nesse mesmo texto, artes é um saber como todos os outros, sendo assim, umas pessoas vão ter facilidade em aprender e outras não. Não dá simplesmente para deixar livre para que eles mesmos possam aprender, porque ninguém aprende nada se não tiver alguém que ensine, ou algum lugar do qual possa buscar esse conhecimento. Fico triste, porque em geral, o saber artístico sempre acaba em segundo plano.
Diante disso, talvez a minha crítica em geral não seja a Ana Mae, mas sim a maneira como as instituições de ensino e seus respectivos professores entenderam sua Abordagem Triangular. Fora que essa abordagem comemorou ano passado 25 anos de aplicação nas escolas. Um quarto de século é um tempo grande, acho que talvez seja interessante que algumas coisas fossem revistas ou talvez até só reforçadas da maneira correta.
Por fim, mesmo tendo compreendido os motivos e maneira de ação da Abordagem Triangular, eu, pessoalmente, acho muito complicado colocar isso tudo dentro de um projeto e fazer funcionar, estabelecendo uma divisão igual para cada parte e dando a cada uma sua devida importância. Não creio ser impossível, mas da maneira como vejo o ensino hoje, eu não tenho peito pra encarar. E foi por isso que eu dei uma surtada quanto ao curso, enfim: eu entrei para Artes e me deparei com a Arte (e fiquei realmente louca: Parte II).

Para não finalizar de forma tão triste esta segunda parte, vou dizer que talvez o problema todo tenha sido ter dado aula para o ensino fundamental, pois recentemente no estágio de Prática do Ensino da Arte no Ensino Médio, me deparei com o Ensino Técnico, e acompanhando aulas como “Teoria da Cor e Forma” para uma turma “Modelagem do Vestuário” onde a ementa era toda bonitinha e certinha e eu tinha certeza do que eles precisavam aprender, me senti mais segura e mais feliz. Acredito ter me sentido assim por saber exatamente o que tinha que ensinar e por lidar com pessoas que estavam realmente interessadas em aprender. Fim do capítulo II.

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