Bom, quando eu estava no meio
desse embate (ler post passado), chega com um solavanco, a educação. Digo que chega como um
choque, pois antes mesmo de eu ter encarado a minha primeira disciplina de
licenciatura e iniciado calmamente a minha apresentação a arte-educação, eu
decidi ser professora de ensino fundamental em um colégio do Estado.
Foi uma experiência ruim, muito
ruim. Entrei para dar aula no começo do ano letivo (fevereiro) para 5 turmas,
de 6º ao 9º ano. 5 horas de aula e 3 de planejamento. Não sei se é válido
escrever toda a experiência passo por passo, sendo assim ressaltarei só alguns
pontos.
Foi uma experiência péssima por vários
motivos, um deles é que o colégio em si era problemático e não só eu, mas todos
os professores tinham problemas com aquelas turmas que eu lecionava.
Segundo porque como eu não tinha
me deparado com nenhuma disciplina pedagógica, e eu fui jogada dentro de uma
sala de aula sem nenhuma preparação, eu não fazia ideia de por onde começar.
Sabia que sim que tinha que começar procurando por algum planejamento, e
descobri que o tal se chama PPP (Projeto Político Pedagógico). Descobrindo então
que não existia tal item no colégio fui atrás do PCN (Parâmetro Curricular
Nacional).
Encontrei o PCN do Estado para
área de artes, que ficava num computador chumbrega que mal funcionava na sala
dos professores. Por alguns segundos me senti salva e logo depois que li me
senti perdida. O PCN era um guia de nada, basicamente tudo que eu li dizia:
ensine tudo o que a arte pode permitir, da maneira que melhor lhe convir.
Tentei procurar por livros didáticos
de Artes e apostilas de ensino particular, mas não funcionaram para a turma. Tentei
começar só pela história da arte, tentei trabalhar em cima de um projeto,
tentei passar só exercícios, tentei um tanto de coisas e nada funcionou. Não procurei
por livros complementares sobre o ensino da arte em geral, talvez esse tenha
sido meu erro, mas foi tanta decepção que no fim comecei a não me importar
mais, só ficava ali, gritando e tentando controlar todo mundo.
Comecei a questionar se eu
realmente estava interessada em dar aula, se eu me importava com o interesse
dos alunos em arte, se eu queria realmente fazê-los entender e se eu realmente
queria comprar aquela briga louca contra como está a educação, principalmente a
pública onde eu me encontrava. A resposta que obtive foi um sonoro não. Era
muita briga pra comprar, era muito esforço da minha parte em tentar enfiar um
conhecimento de arte em gente desinteressada. Ainda mais um conhecimento que eu
julgava nem eu mesma entender direito, um conhecimento que eu não via qual ligação
tinha com aquele ambiente (Aqui vai remeter um pouco aquela história toda de
arte elitista).
Enfim, entrei em depressão (mesmo)
e comecei a me questionar se eu queria mesmo continuar no curso de artes e me
formar professora. E não, eu não queria ser professora. E eu também não me via
artista, não entendia como pensavam e sinceramente não queria ser. Não gostava
de artes, não ia ao museu, não gostava de leitura de obras, não tinha
habilidades artísticas, não tinha habilidades manuais e por fim odiava com toda
a força dar aula. E então, o que mesmo que eu estava fazendo no curso de artes?
Bom, um semestre depois que
larguei as aulas (fiquei 7 meses), iniciaram as matérias de licenciatura,
começando com Fundamentos da Arte na Educação (FUAED). Eu sinceramente me
matriculei só por obrigação, porque a vontade mesmo que eu tinha era cair fora.
Não cai por motivos pessoais e porque eu não tinha mais nenhum outro caminho disponível
pra minha vida se não continuar. Por sorte, a professora de FUAED foi excelente,
muito boa mesmo e eu consegui ficar com alguns ensinamentos. Mas em geral, tudo
que tinha ligação direta com a arte-educação foi em partes eliminado pelo meu cérebro.
Foi só quando eu cursei a matéria
de Prática do Ensino da Arte no Ensino Fundamental que consegui entender o porquê
do PCN ser do jeito que é, foi quando eu conheci através de textos, a digníssima
Ana Mae Barbosa, grande arte-educadora, muito renomada, que contribuiu em
grande parte para a mudança do ensino da arte do Brasil e que foi senhora criadora
da famosa Abordagem Triangular.
Entendi sim, que o PCN era como
era porque era baseado na Abordagem Triangular, mas não entendia o porquê a Abordagem
Triangular ser tão amada por todos, sendo que diante da experiência que tive,
ela não funcionava. Vi-me novamente perdida diante dessa abordagem da qual
dizia que o ensino de artes era baseado em três pilares: o fazer artístico, a
análise de obras e objetos de arte e a história da arte. Não entendia como eu
ia conseguir condensar isso tudo nas aulas e ainda mais interligando um no
outro.
Fui capaz de compreender, lendo
sobre os caminhos do ensino da arte no Brasil o porquê do surgimento dessa
proposta. No início só existia o ensino da técnica, depois com o acontecimento
da Escolinha de Arte, ficou tudo livre, muito livre (e ainda assim voltado para
a técnica, mas não mais de um modo engessado), e por fim, por se sentirem
perdidamente livres e por não conseguirem nenhum resultado com isso, os
educadores foram criando livros ou apostilas para se basear o ensino ficou só
voltado para elas, voltando novamente a ser algo “engessado” e não condizente
com a arte em que vivemos.
Ana Mae Barbosa, através do seu
aprendizado com o seu tutor Paulo Freire (que tem uma proposta bem parecida com
a Abordagem Triangular, mas não somente voltada para artes e sim para todo o
universo de aprendizagem) veio por intermédio dessa nova abordagem, voltar o
ensino da arte para a necessidade de hoje.
Hoje, eu compreendo a Abordagem
Triangular, mas ainda tenho algumas críticas não fundamentadas sobre essa
proposta (sim, o triste é que como vocês repararam nenhum argumento meu é
fundamentado).
Na verdade talvez não sejam
críticas a abordagem em si, mas como ela foi implementada nos PCNs e como eu
acredito que ela não realmente funciona. Pode ser que seja por falta de um PPP
nos colégios, mas em geral em uma instituição de ensino pública, como os
colégios do estado ou até alguns colégios particulares, há uma enorme
rotatividade de professores na área de artes, e eu considero muito estranho não
ter nenhuma ordem a ser seguida dentro dos PCNs.
Não creio que uma ordem
cronológica de saberes interfira diretamente na liberdade da Abordagem
Triangular, pode-se ter um cronograma de conhecimentos a serem adquiridos e
mesmo assim podem-se aplicar dentro de um ou vários projetos o fazer artístico,
a análise de obras e objetos de arte e a história da arte. Exemplo: se em uma
turma de 6º ano deve ser aplicado noção de cores (cor luz, cor pigmento, cor
fria, cor quente, disco de cores, mistura de cores e etc) e formas (objetos 2D,
3D, profundidade, luz, sombra e etc), isso não interfere que seja feito um projeto
onde se encaixe todos os itens da Proposta Triangular.
Vamos supor que o professor em
contato com a turma verificou que a turma gosta de fotografia e acha que é uma tecnológica
interessante de ser trabalhada. Ok, então, crie um projeto de fotografia,
mostre fotografias de alguns mestres, mostre como ela é hoje na contemporaneidade,
mostre trabalhos instigadores como os da Bienal, insira um assunto sobre cor, a
falta de cor, o uso da cor ou qualquer coisa, proponha que façam estudos de
fotografia com relação a cor, pode-se fazer uma conexão com a comunidade, cores
do bairro, cores do colégio, sei lá. Ensine a manipular as cores em um material
disponível no colégio e depois peça uma reprodução do próprio trabalho de
fotografia, ou de um colega utilizando outro suporte. (Obs.: isso é só um
exemplo por alto).
Enfim, o que eu entendo é que ter
um cronograma de cada saber da área de artes para cada ano do ensino básico (e
infantil), não é retornar o ensino da arte para o que era e nem estagnar ele.
Todas as disciplinas que cursamos na vida têm ementas a serem seguidas e nem
por isso elas limitam a gente, aliás, tudo na vida precisa de alguma ordem.
“Engessar” ou não o ensino da
arte é o professor que define. Eu vi durante meu período de estágio no ensino
básico que mesmo diante da Abordagem Triangular (talvez até por se sentirem
perdidos) alguns professores a entendem de forma errada, ou talvez queiram
entender dessa forma por ser mais fácil e acabam por fazer uma massa de bolo.
Fazem projetos que retornam mais a arte-educação a forma que era do que se por
algum acaso seguissem algum cronograma. Criam um mesmo projeto inúmeras vezes,
só trocando o artista a ser apresentado, tornando assim a aula repetitiva e
chata.
Em geral essa “massa de bolo”
consiste em: escolhem um artista (Portinari ou Tarsila), apresentar o artista,
a vida e as obras, iniciar uma discussão “semiótica” de análise de imagens e
por fim fazer uma releitura das imagens. Quando esse projeto termina, escolhem
outro artista e começam tudo de novo.
Eu mesma acabei caindo nesse
esquema, quando dei minha aula para o ensino infantil, pois a professora pediu
que eu fizesse algum projeto que se inserisse dentro do dela, que era sobre
Portinari. O projeto anterior ministrado por essa mesma professora, tinha sido
sobre a Tarsila, e na releitura do quadro “O Abaporu” pediu que os alunos
utilizassem tinta acrílica sob tela e quando os alunos saiam para o recreio pegava
tela por tela e pintava o que estava faltando e/ou corrigia o desenho para que
ficasse mais parecido com o original.
Essa professora foi formada no
mesmo curso que o meu, na mesma Universidade da qual estudo. Ela estava agindo
de acordo com o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil
(RCNEI) dentro da Abordagem Triangular. Esse exemplo, é só pra reforçar que, é
o professor que faz ou não o ensino da arte ser interessante.
Outra coisa, que eu acredito ser
importante é o fazer artístico. O fazer artístico inclui técnica, e técnica tem
que ser ensinada. Se o assunto era sobre cor, ensine a misturar as tintas e a
pintar o círculo de cores, ensinando os alunos a conhecerem e utilizarem
corretamente os materiais (sim eu tenho consciência de que o “correto” em arte
é muito vago, mas o que eu quero dizer com essa palavra é que é válido ensinar
algumas técnicas de como utilizar o material). Os alunos vão ter dificuldades
sim, com o uso e aprendizado de técnicas artísticas, mas como eu já disse anteriormente
nesse mesmo texto, artes é um saber como todos os outros, sendo assim, umas
pessoas vão ter facilidade em aprender e outras não. Não dá simplesmente para
deixar livre para que eles mesmos possam aprender, porque ninguém aprende nada se
não tiver alguém que ensine, ou algum lugar do qual possa buscar esse
conhecimento. Fico triste, porque em geral, o saber artístico sempre acaba em
segundo plano.
Diante disso, talvez a minha
crítica em geral não seja a Ana Mae, mas sim a maneira como as instituições de
ensino e seus respectivos professores entenderam sua Abordagem Triangular. Fora
que essa abordagem comemorou ano passado 25 anos de aplicação nas escolas. Um
quarto de século é um tempo grande, acho que talvez seja interessante que algumas
coisas fossem revistas ou talvez até só reforçadas da maneira correta.
Por fim, mesmo tendo compreendido
os motivos e maneira de ação da Abordagem Triangular, eu, pessoalmente, acho
muito complicado colocar isso tudo dentro de um projeto e fazer funcionar, estabelecendo
uma divisão igual para cada parte e dando a cada uma sua devida importância.
Não creio ser impossível, mas da maneira como vejo o ensino hoje, eu não tenho
peito pra encarar. E foi por isso que eu dei uma surtada quanto ao curso,
enfim: eu entrei para Artes e me deparei com a Arte (e fiquei realmente louca: Parte
II).
Para não finalizar de forma tão
triste esta segunda parte, vou dizer que talvez o problema todo tenha sido ter
dado aula para o ensino fundamental, pois recentemente no estágio de Prática do
Ensino da Arte no Ensino Médio, me deparei com o Ensino Técnico, e acompanhando
aulas como “Teoria da Cor e Forma” para uma turma “Modelagem do Vestuário” onde
a ementa era toda bonitinha e certinha e eu tinha certeza do que eles precisavam
aprender, me senti mais segura e mais feliz. Acredito ter me sentido assim por
saber exatamente o que tinha que ensinar e por lidar com pessoas que estavam
realmente interessadas em aprender. Fim do capítulo II.
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